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Não sou Bom
Não sou bom porque caminho aflito, com passos inseguros, o caminho dos homens. Não sou leal porque rejeito a morte e grande parte do tempo a vida que me foi dada. E quem confia em mim, confia na minha imagem, que é o maior mistério. Queria ter a coragem no tempo único em que acordo e durmo, mas minha força se divide; cada dia pertenço à memória de algo. Me distancio do meu objetivo de viver sem culpa uma vida inteira só minha. Fico entregue aos delírios, sinto perder para as
Sâmela Barreto


Limão siciliano
Às seis da tarde, o sol desceu apressado. Vi uma borboleta solitária cruzar o feixe de luz e desacordá-lo. Entrou pela porta a moça desatenta para a vida, que se apoiava no peso dos outros para não se sentir pesada. Era a mesma camisa, a cor limão siciliano, e os olhos mortos de maresia. A cidade, o labirinto aberto para a cruzada fechada de seu coração. Se pudesse tirar a dor de cabeça atrás dos seus olhos, só escuto e imagino o silêncio da noite e o estalo dos segundos part
Sâmela Barreto


Meu mundo inteiro sou eu
Contra o muro dourado, nasce o dia nublado. Lembro da mortalidade e adormeço no cinza, sem o azul. Entre montanhas de aço, criei guerras sem nenhum soldado. Dei gritos mudos no espaço, fiz um pequeno quarto na raiz. Meu mundo inteiro sou eu.
Sâmela Barreto


Eu falo de um corpo
Não alcanço a voz, eu falo de um corpo que, de pé, é maior e mais agressivo do que eu. Sou um corpo dos corpos que se repetem, e isso não é mistério para ninguém. Imito o tamanho do sol, me perco tentando despertar em mim a vocação de um mundo. Quando, na turbulência de meus pensamentos, há um caminho de borboletas prateadas, palavras frágeis, como pegadas arrastadas pela areia.
Sâmela Barreto
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